Um Interrogatório com o novo Código do Processo Penal

28/09/2007 3 Comentários por
 

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Novo modelo de interrogatório imposto às policias portuguesas

– Senhor X?
– Sim, sou eu!
– Faz favor de tomar conhecimento dos seus direitos e deveres processuais: tem o direito a mentir, a estar calado, a não dizer nada e a ter sempre advogado, querendo. O resto está aqui descrito neste papelinho, que é para si; está assinado por mim, para atestar que o Sr. foi devidamente informado. Já leu?
– Li sim senhor!
– E percebeu, que tem direito a mentir, a estar calado e a não responder?
– Percebi sim senhor! E agora?
– Agora vou informá-lo do que se passa: o Sr. está aqui, porque o Sr. Y apresentou queixa contra si. O malandro do queixoso, disse que o Sr. cometeu este e aquele crime. E apresentou a seguinte prova documental: este, este e este documento. E nós entretanto, escutamos as suas conversas ao telefone e ouvimos isto, que o compromete.
– É pá! isso é legal?
– Lamento mas de facto, um dos raríssimos crimes que admite a escuta telefónica, parece que, eventual e remotamente, possa ter sido cometido por si…
– Bolas! e tem a certeza que era a minha voz?
– Hummm… bem… a certeza, não tenho…
– Então estou mais descansado!
– Por outro lado, as velhacas das testemunhas A, B e C, arroladas pelo queixoso Y, disseram todas que sim, que foi você que cometeu os crimes.
– As 3 testemunhas?
– Sim…
– Associação criminosa, portanto!
– Bem… calhando… bom, adiante. Também andámos atrás de si, para ver o que fazia. Filmámos tudo e fotografámos!
– É pá! E isso é legal?
– Ser, é. Mas só é utilizável no processo, se fizermos um reconhecimento pessoal.
– Ah! Então, estou mais descansado!
– Pronto! Já foi informado, conforme o Código Penal! Então Sr. X? Quer responder a perguntas que temos para lhe fazer, neste processo-crime? Quer?
– Eu?!? Eu não! Só perante o meu advogado!
– Portanto, não quer responder!
– Eu?!? Eu não disse isso! Eu estou aqui, para cumprir o meu papel social de colaboração com a justiça, segundo o novo Código de Processo Penal e em oposição clara e frontal ao abuso policial que vingava antigamente! De facto, o que eu disse foi: só respondo perante um advogado.
– Então, arranje um, se quiser fazer esse favor.
– Eu fazia… mas não tenho dinheiro, sabe! Os jantares! Os cavalos! Os carros! As assistentes do negócio… uma despesa pegada… há dias, que nem ceio!
– Pois… uma maçada processual! Então e se pedir à segurança social?
– Eu, pedir, até pedia… mas demora muito tempo, sabe… e depois, com os carros e casas que tenho, das burlazitas que tenho cometido, o mais certo é negarem-me o apoio judiciário!
– Malandros! Uma pena, de facto!
– Pronto… então, terminámos esta entrevista policial?
– Sim claro! Vamos marcar a diligência do reconhecimento pessoal.
– Naaa… não vale a pena incomodar-se Sr. agente! Eu não venho, porque não sou obrigado. E se fosse, como não tenho advogado… não me interrogam, sob pena de nulidade!
– Pois… de facto… diligências inúteis! Olhe… vá-se lá embora. Mas diga-me só uma coisa: vai assinar comigo o auto, para eu dizer aqui a que hora terminou, não vai?
– olhe… eu até assinava! Mas como não sou obrigado e não tenho advogado… calhando, nem assino, para garantir a nulidade! Não leve a mal! Mas não trouxe sequer aquela caneta cuja tinta desaparece depois de uns dias…
– Compreendo perfeitamente! Deixe estar Sr. X! Quase que era apanhado desprevenido! Não se incomode, que vou informar o Ministério Público.
– Queixinhas!
– Eu?!?
– Não! O queixoso!
– Ahh! Esse diabólico seguidor da seriedade!
– Pois… já viu o que ele me arranjou? Estragou-me a vida, foi o que foi! Olhe… Sr. agente: já agora, tenho um requerimento a fazer!
– Diga se faz favor Sr. X!
– Quero que o processo fique em segredo de justiça! É que tenho a minha imagem para proteger… e se se souber que corrompo e vendo a mesma casas 30 vezes e fujo ao fisco, o traficozinho… e que vendo imagens de pedofilia, é mau para a minha imagem, e neste meio empresarial… a concorrência… sabe como é! A imagem é tudo!
– Compreendo perfeitamente Sr. X.
– E já agora: como disse que se chamam as testemunhas?
– A, B e C. Conhece? Sabe onde moram?
– Sim claro! Eu já trato disso assim que sair daqui… conheço uns “portas” profissionais muito sérios e conscientes do seu trabalho, acabados de sair da preventiva encurtada…
– Então, boa tarde!
– Boa tarde e muito, muito, muito obrigado Sr. agente!
– De nada!
– Acha que leva muito tempo a arquivar o processo?
– Penso que não!
– Então o que vai fazer agora?
– Vou remeter o processo com a sua constituição de arguido para o Ministério Publico, para homologação…
– Ahn… nesta Comarca… sim… ahn… ora, estamos em 2007?
– Sim.
– Pois… então, lá para Março…
– De 2009…
– Pois… talvez…
– Ora então, com sua licença, vou indo… tenho que vender a casa outra vez!
– Vá, vá Senhor X!
– Ainda há gente bem educada!
– Mais um arguido satisfeito! NÉÉÉÉÉÉXT!!!!!

……………………………………………………………………………………………………………………

– Boa tarde!
– Boa tarde! Diga se faz favor.
– Sou o Sr. Y, queixoso. Gostaria de saber, em que estado está o processo contra o Sr. X?
– Lamento, mas está em segredo de justiça! Acabadinho de requerer!
– Eh pá! Mas eu não concordo! Então e agora?
– Agora, tem de arranjar um advogado, requerer a assistência e solicitar ao Ministério Público que o processo seja público.
– E ele decide?
– Não, mas quase! Ainda vai ao Juíz…
– Ahn… então quando sou ouvido?
– Ora, estamos em 2007, o processo deve regressar, pela ordem, lá para 2010.
– Pronto, está bem. Então vamos aguardar.
– Boa tarde e até breve.

[…] and so on……………

Actualidades, Humor

3 Responses to “Um Interrogatório com o novo Código do Processo Penal”

  1. sadi says:

    Que falta de imaginação…

    Este texto foi retirado deste blog e nem sequer uma alusão lhe é feita!!!
    http://atuleirus.weblog.com.pt/arquivo/2007/09/um_interrogator.html
    Foi publicado a 15 de Setembro e o teu a 28 de setembro.

    Plágio é crime.

  2. coexistblog says:

    Caro Senhor (ou Senhora)

    Convém que antes de fazer acusações se saiba a realidade dos factos, sob pena de se estar a acusar falsamente e de se cair no rídiculo, que foi o seu caso.

    Para que saiba, apesar de não ter satisfações a dar-lhe, o texto em questão chegou-me de duas formas e, curiosamente, no mesmo dia: de forma electrónica via e-mail e de forma impressa pela mão da minha esposa, que trabalha no Ministério da Justiça e onde esse texto fez um enorme sucesso.

    Por isso fique desde já a saber que o blog que refere no seu comentário é do meu perfeito desconhecimento, nunca lá estive vez alguma nem tão pouco sabia da sua existência até hoje.

    Decidi por o texto no Blog pois retratava uma questão importante da sociedade, fazendo-o de forma inteligente e cheia de humor. Para além disso o texto não tem qualquer assinatura de autor, fonte de origem ou menção de direitos reservados.

    Para finalizar esclareço-o(a) que também é crime fazer falsas acusações sem provas que as sustentem, por isso da próxima vez recomendo-lhe um pouco mais de bom senso nos comentários que faz sobre assuntos dos quais desconhece por completo a realidade.

    Os meus cumprimentos e volte sempre.

  3. MatosB says:

    só hoje dei por isto e pela pequena polémica.
    ainda bem que o texto fez sucesso.
    .
    Cumprimentos
    /MatosB – atuleiros.

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