Resposta a Maitê Proença

20/10/2009 3 Comentários por
 

Exma. Senhora:

Foi com indignação que vi a “peça cómica” que fez em Portugal e passou no programa Saia Justa em que participa. Não que me espante que o tenha feito – está à altura da imagem que há muito tenho de si, pelo que me tem sido dado ver pelos seus desempenhos – mas sim pelo facto da TV Globo ter permitido que tal ignorância fosse para o ar.

Só para que possa, se conseguir, ficar um pouco mais esclarecida:

– a “vilazinha” de Sintra é património da Humanidade, classificada pela UNESCO e unanimemente reconhecida como uma das mais belas e bem preservadas cidades históricas do mundo;

– em Portugal, onde existem pessoas que olham para o mouse do seu computador como se de uma capivara se tratasse, foi onde foi inventado o serviço pré-pago de telefones móveis (os celulares) – não existia nenhum no mundo que sequer se aproximasse;

– foi também o país que inventou o sistema de passagem nas portagens (pedagios, se preferir), sem ter que parar – quando passar por alguma, sem ter que ficar na fila, lembre-se que deve isso aos portugueses;

– é dos países do Mundo com maior taxa de penetração de computadores e serviços de Internet em ambiente doméstico;

– é o único país do Mundo onde TODAS as crianças que frequentam a escola têm acesso directo a um computador (no próprio estabelecimento de ensino) – e em Portugal TODAS as crianças vão à escola. Muitas delas até têm um computador próprio, para seu uso exclusivo, oferecido ou parcialmente financiado pelo Ministério da Educação – já ouviu falar do Magalhães? É natural que não… mas saiba que é uma criação nossa, que está a ser adquirida por outros países. Recomendo-o vivamente – é muito simples e adequado para quem tem poucos conhecimentos de informática;

– somos tão inovadores em matéria de utilização de tecnologia informática e web nas escolas, que o nosso caso foi recomendado por especialista americanos, como exemplo a seguir, a Barack Obama, que é só o Presidente dos Estados Unidos – ao Sr. Lula da Silva tal não seria oportuno, porque ele considera que a Escola não é determinante no sucesso das pessoas (e, no Brasil, a julgar pelo próprio, tem toda a razão);

– a Internet à velocidade de 1 Mega, em Portugal há muito que é considerada completamente obsoleta – eu percebo que não entenda porquê, porque no Brasil é hoje anunciada como o grande factor diferenciador;

– a transmissão por cabo já não nos interessa. Já estamos noutra – estamos entre os países do mundo com a rede de fibra óptica mais desenvolvida. E nesse contexto 1 Mega é mesmo uma brincadeira;

– O ditador a que se refere – o Salazar – governou, infelizmente, “mais de 20 anos”, mas para a próxima, para ser mais precisa, diga que foram 48 (INFELIZMENTE, é mais do dobro de 20);

Ainda assim, e apesar do muito dano que nos causou a sua governação, nós, portugueses, conseguimos em 35 anos:

– Reduzir praticamente a ZERO a taxa de analfabetos;

– Baixar para cifras irrisórias o nível de mortalidade infantil e de mulheres no parto – estamos entre os melhores do mundo;

– Criar uma rede viária que é das mais avançadas do mundo – em Portugal, sem exceder os limites de velocidade e sem correr risco de vida, fazemos 300 Kms em duas horas e meia (daria tanto jeito que no Brasil também fosse assim);

– Melhorar muito o nível de vida das pessoas, promovendo salários e condições de trabalho condignos. Temos ainda muito para fazer nesta matéria, mas já não temos pessoas fechadas em elevadores, cuja função é apenas carregar no botão do andar pretendido – cada um de nós sabe como fazê-lo e aproveitamos as pessoas para trabalhos mais estimulantes e úteis; também já não temos trabalhadores agrícolas em regime de escravatura – cada pessoa aqui tem um salário, não trabalha a troco de um prato de comida;

– Colocar-nos na vanguarda mundial das energias renováveis, menos poluentes, mais preservadoras do planeta; enquanto uns continuam a escavar petróleo, nós estamos a instalar o maior parque de energia eólica do mundo (é a energia produzida a partir do vento);

Poderia também explicar-lhe quem foi Camões, Fernando Pessoa, etc., cujos túmulos viu no Mosteiro dos Jerónimos, mas eles merecem muito mais.

Ah!, já agora, deixe-me dizer-lhe também que num ponto estou muito de acordo consigo: temos muito pouco sentido de humor. É verdade. Não acharíamos graça nenhuma se tivéssemos deputados a receber mesada para votarem num certo sentido, não nos divertiria muito se encontrassem dirigentes políticos com dinheiro na cueca, não nos faria rir ter senadores a construir palácios megalómanos à conta de sobre-facturação do Estado, não encontramos piada quando os políticos favorecem familiares e usam o seu poder em benefício próprio. Ficaríamos, pelo contrário, tão furiosos, que os colocaríamos na cadeia. Veja só – quanta falta de humor! Mas, pelo contrário, fazem-nos rir as sessões plenárias do senado brasileiro. Aqui em Portugal, e estou certa que em toda a Europa, tal daria um excelente programa de humor. Que estranho não é?!

Para terminar só uma sugestão: deixe o humor para quem no Brasil o sabe fazer com competência (e há humoristas muito bons no Brasil). Como alternativa, não sei o que lhe sugerir, porque ainda não a vi fazer nada que verdadeiramente me indicasse talento… Peço desculpa por não poder contribuir.

Mafalda Carvalho

Recebido via e-mail

Opinião

3 Responses to “Resposta a Maitê Proença”

  1. Guilherme says:

    Sou brasileiro e concordo com tudo que disseste.

  2. Mônica França says:

    Mais uma vez este assunto já tão massificado e, diria, “tão sem conteúdo” que foi o vídeo da que se tornou a mais “popular” artista em Portugal, Maité Proença.
    Recebi esta carta que está circulando pela internet e, realmente, não tive como não fazer uma análise um pouco “controversa” da visão que a senhora em questão tem de sua “tão amada terrinha”.
    Não questiono aqui os tantos e muitos problemas que nosso Brasil sempre enfrentou em todos os seus segmentos, pois nós, os brasileiros temos esta capacidade memorável de análise sem o pessismo e o rancor de nações pouco produtivas. Nações que esgotaram seus recursos, muitas vezes esquecidos pela natureza e, pior, pelo povo que alí está.
    Isto posto, vamos aos fatos que, espero que todos entendam, não constituem uma defesa ao comportamento já tão questionado da senhora artista.

    Compreendo que a mesma tenha se indignado pelos atos nada memoráveis da “pobre” Maité. Contudo, a forma como o povo português se vê, eu diria, é questionável.

    Portugal é o país, segundo estatísticas da Eurostat, com um dos maiores índices de analfabetismo da comunidade européia (10 em cada 100 habitantes pelos dados do último senso).

    Não conseguem se familiarizar com a informática. O Magalhães não é o sucesso que fazem divulgar mundo afora e chegaram a fornecer para Venezuela antes mesmo de todo o 1º ciclo ter acesso a tal solução.

    Só conseguiram entrar para o ranking dos países que mais fibra ótica utiliza em residências porque, convenhamos, num país com uma população de 10 milhões de pessoas… hahhah… é muito fácil conseguir 1% de casas conectadas. No Brasil, já utilizamos fibra ótica há trinta anos. Bem verdade que, a nível doméstico, há pouco tempo e ainda caro para um acesso maior da população. Lembrem-se… somos um país em desenvolvimento.

    Se em Portugal TODAS as crianças vão à escola, conforme a Srª Mafalda coloca, onde estão os um milhão de analfabetos entre os 10 anos e mais apontados nas últimas estatísticas?

    Quanto aos absurdos políticos e seus atos ilícitos no Brasil, realmente é vergonhoso. Mas como atirar pedras no vizinho quando Portugal tem os seus muitos escândalos como a Operação Furacão que investiga crimes de branqueamento e fuga de capitais e evasão fiscal sem conclusão há anos? O caso Free Port e todos os seus envolvidos, inclusive o 1º Ministro. O caso do maior banco privado de Portugal, o BCP onde, até hoje, seus investidores estão a ver navios?!

    Quanto a “não ter pessoas nos elevadores a apertar botões”, seria melhor que as tivesse. Evitaria os 10 a 15% de taxa de desemprego a atingir no próximo mês. Uma taxa alta para um país deste porte. Evitaria que 35 % dos que habitam em Portugal não tivessem capacidade para manter a casa adequadamente aquecida no inverno. Evitaria a inadimplência e a redução da qualidade de vida que grande parte da sua classe média. Se bem que, um adendo: a inadimplência em Portugal é, digamos, cultural. São vistos como péssimos pagadores na comunidade européia.

    Outra questão intrigante e típicamente portuguesa é a frase “colocar-nos na vanguarda das energias renováveis”… !!!… saiba que a única fonte de energia que poderia ser substituída pela eólica seria a hidrica, haja vista a intermitência de ambas. Nenhuma substitui o combustível fóssil, da qual este país é extremamente dependente ainda. Seu incentivo a este tipo de desenvolvimento se deve aos subsídios oferecidos pela comunidade européia para tal. E, sejamos claros, na vanguarda mundial deste tipo de energia estão Alemanha e Dinamarca que conseguiram um aumento de 20% na produção e, mesmos assim, em parques privados para um consumo pontual.

    Concordo também quando a senhora em questão nos diz que “cada um trabalha por um salário e não por um troco”. Em Portugal, há que se levar em consideração o percentual de desempregados “enconstados” pela Segurança Social a recusar empregos das agências de emprego nacionais a fim de não perderem o tal “benefício”. Se isso se traduz em trabalho e não troco, concordodo plenamente. O português não é memso muito chegado a labuta.

    Ah… e quanto ao humor, realmente, deixemos para que os brasileiros o façam e, aliás com muito talento da televisão brasileira tão assistida, admirada e copidada em Portugal. Afinal, aqui, humor não existe, é triste! Ou será que alguém realmente se diverte com um tal de “Gato Fedorento”?

    Como vês, senhora, há que se ter muito cuidado ao se jogar pedra no telhado dos vizinhos se o nosso é de vidro!

  3. virginia says:

    Olá! Como brasileira fico envergonhada com a possibilidade de algum compatriota ter desrespeitado quem quer que seja. Fico também curiosa para saber o que exatamente foi dito pela Maitê. Não consegui aceso ao video, nem ao texto.
    Acho também que a resposta ao desrespeito não deveria passar pela questão dos indicadores sociais e/ou atraso tecnológico de nosso país (até porque, em tempos de desastres ambientais e desquilíbrio ecológico, avanço tecnológico e desenvolvimento são bastante discutíveis). Se por um lado, temos sérios problemas com os políticos e a falta de ética, por outro, temos um povo eminentemente honesto, trabalhador e profundamente feliz, apesar de todas as mazelas sociais inegavelmente existentes. Os ataques deveriam ser dirigidos somente à Maitê Proença, responsável pelos seus atos e palavras.
    Abraço fraterno de uma brasileira que considera todos os povos dignos de respeito e de tratamento ético

    Virginia

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