Opinião sobre iPhone, Marketing e Sociedade de Consumo

09/12/2007 Sem Comentários por
 

Um blog amigo, emitiu esta opinião sobre este meu artigo e não deixa de ser interessante verificar que na generalidade das pessoas ainda subsiste a ideia limitativa de que o 3G se resume às video-chamadas. Nada mais errado! É quase como afirmar que a banda larga serve apenas para video-conferência.

Não, graças a Deus (e aos ISP’s) a banda larga serve para MUITO mais coisas, senão seria um desperdício de dinheiro e de recursos tecnológicos.

Tal como o exemplo da banda larga, o 3G significa principalmente maior e melhor velocidade de transmissão de dados, através da qual se pode fazer várias coisas, incluíndo… as tais video-chamadas.

Ok, o iPhone tem Wifi, mas isso de pouco adianta quando estamos em férias, longe de qualquer hotspot. Ora é precisamente nessas situações de férias, fim de semana ou até num simples passeio até uma esplanada à beira mar, que o Wifi deixa de ser útil e passa a ser útil o 3G, pois permite velocidades de acesso superiores ao sistema EDGE (que é o que o iphone usa).

Por outro lado, se é um facto que em Portugal as video-chamadas (3G) não são muito utilizadas (será do elevado preço cobrado pelas operadoras pelo serviço?), também é um facto, nada desprezável, que no resto da Europa e principalmente no Japão, essa tecnologia já está bem implementada. Neste último país mais de 80% das pessoas utilizam o serviço 3G para video-chamadas e ligações de dados. Agora, se a Apple encara o Japão como sendo um mercado sem significado, isso apenas demonstra, em minha modesta opinião, uma enorme miopia empresarial.

A Apple que lance o iPhone no Japão sem 3G e sem incluir mais funcionalidades comuns hoje em dia e depois vamos ver. Como gadget multimédia é capaz de ter algum sucesso, embora para isso já exista o iTouch, mais barato e mais pequeno, agora como telemóvel não me parece que os japoneses venham a dar grande importância ao iPhone, tenho quase a certeza disso.

Não deixa também de ser curioso que um telemóvel dito de ultima geração, que foi como o iPhone implicitamente foi apresentado pelas palavras do seu patrão Steve Jobs, que afirmou na sua apresentação: “acabamos de reinventar o telemóvel!”, não deixa de ser curioso, repito, que o tal aparelho revolucionário não traga de raíz, em 2007/2008, uma tecnologia que já existe desde…. 2003! E atenção, que o 4G já existe e já anda no mercado em vários telemóveis.

Algumas das limitações do iPhone chegam a torná-lo anacrônico dentro do universo actual do mercado europeu de telemóveis. A obrigatoriedade de firmar um contrato de X anos com determinada operadora, por exemplo, equivale a comprar um computador que só aceita um tipo de fornecedor de internet. E como cereja em cima do bolo de anacronismo, é ainda a Apple que define quais os softwares que podem ser usados no iPhone.

Actualmente, as principais plataformas responsáveis pelos avanços no mundo digital são as plataformas abertas, que aceitam a colaboração de diversos programadores e de software “third-party”. A tendência tecnológica no mundo é de abertura e compartilhamento de soluções. A tendência do iPhone, para já, é exactamente no sentido inverso.

Em minha opinião e perante a filosofia actual da Apple, o iPhone parece destinado a uma carreira bem mais modesta que a do iPod, um fenómeno que conquistou 80% do mercado americano de leitores de MP3 e que vendeu mais de 110 milhões de unidades no mundo desde 2001. Na altura, o iPod revolucionou a maneira de ouvir música e entrou num mercado fragmentado, onde nenhuma grande indústria dominava o segmento. Entretanto, após todos estes anos de sucesso, (o que torna a situação ainda mais incompreensível), tornou-se também uma plataforma bem mais fechada e monopolista do que era no início, mas isso é outro assunto.

Ora, com o iPhone a história e principalmente o caminho a percorrer, é bem diferente do que se passou com o iPod. O iPhone atirou-se para um mercado onde já se encontram instalados “tubarões” muito maiores que a Apple e que dividem o sector há mais de uma década, com marcas tão prestigiadas como a Palm, a BlackBerry, a Nokia, a Motorola, a Samsung e a LG, só para citar as principais. Essas empresas já produzem aparelhos tecnológicamente superiores ao iPhone e cada vez mais completos e diversificados, para conquistar a atenção dos 3 biliões de pessoas – praticamente metade da população mundial – que hoje têm telemóvel.

No 1º semestre deste ano a LG lançou um telemóvel com design da griffe Prada, cujo interface, tal como o iPhone, é feito por toques no écran. Ao contrário do aparelho da Apple, o LG Prada produz pequenos vídeos e aceita cartões de memória, entre outras funcionalidades.

A Nokia lançou nos Estados Unidos um smartphone, o modelo N76, vendido a 499 dólares – o mesmo preço do iPhone mais simples –, mas que pode ser usado com qualquer operadora.

Embora com uma história de pioneirismo no mundo dos aparelhos tecnológicos, Steve Jobs desta vez terá de suar um pouco mais a camisa para fazer do iPhone um ícone de mercado. Será preciso aperfeiçoar o aparelho e livrá-lo das suas amarras operacionais. Atribuir-lhe funcionalidades para já inexistentes e torna-lo num sistema aberto. Só assim as multidões de consumidores, ávidos por trocar de telemóvel em curto espaço de tempo, continuarão a fazer fila pelo iPhone.

No entanto, por esta altura deste meu longo “discurso” de certeza que muitos de vocês já levantaram a seguinte questão: “então se o iPhone é assim tão “fraquinho”, porquê este hype e sucesso de vendas nos seus lançamentos um pouco por todo o mundo?”

Bem, o iPhone não é um equipamento de desdenhar, pois apesar de limitado como telemóvel tem um interface espantoso e é essencialmente um gadget multimédia (se calhar o “erro crasso” da Apple foi apresenta-lo como telemóvel).

De qualquer forma, voltando à questão, em relação ao normal sucesso de vendas pontual do iPhone nos dias de lançamento, quer-me parecer que esse sucesso só encontra explicação num fenómeno social e comportamental próprio da época em que vivemos e que se resume à avidez com que cada vez mais pessoas consomem as novidades do mundo tecnológico.

Para um número crescente de consumidores, não basta ter um aparelho que atenda às necessidades pessoais, seja ele um telemóvel, uma máquina fotográfica, um leitor de MP3 ou um computador. É preciso ter o aparelho mais novo e mais moderno, aquele que é fashion e que está no top, aquele que dá status e alimenta o ego. Sintomáticamente, os nossos pais viveram com um telefone fixo e com o mesmo carro quase uma vida inteira, mas nós não conseguimos passar mais de ano e meio sem mudar de telemóvel nem mais de alguns anos sem mudar de carro (uns mais que os outros, conforme a capacidade de endividamento de cada um).

Esta busca insaciável pelas novidades tecnológicas (da qual também padeço um pouco, tenho de o admitir) deve-se, em parte, à velocidade impressionante com que cada vez mais produtos inovadores surgem no mercado e nos são habilidosamente apresentados pela maior e melhor máquina de fazer dinheiro: o marketing!

Mais importante que isso, contudo, é que os gadgets pessoais, principalmente os telemóveis, deixaram de pertencer apenas à categoria das ferramentas utilitárias. Exibi-los tornou-se uma forma de expressão pessoal, uma forma de identidade, tal como a roupa que vestimos. As pessoas querem ser as primeiras a ter um iPhone, assim como desejam ter o último modelo da bolsa Prada, ou do casaco Hugo Boss.

Um bom exemplo de como os aparelhos tecnológicos se tornaram um objecto de expressão pessoal, são os toques de telemóvel, os ringtones. Cada um selecciona o seu ringtone de acordo com a própria personalidade ou estado de espírito da ocasião.

E o impulso de substituir os produtos “antigos” pelas novidades do mercado, não se restringe aos gadgets pessoais. Em todo o mundo, os consumidores trocam de electrodomésticos e de automóveis em intervalos mais curtos do que no passado, mesmo que esses equipamentos estejam a funcionar bem, a cumprir a 100% as suas funções e com condições para o continuarem a fazer da mesma forma durante o triplo do tempo de vida que na altura da troca têm.

Em tempos vi um programa sobre marketing, de onde a conclusão tirada foi a de que a publicidade e as modernas técnicas de marketing têm como principal objectivo estimular a insatisfação do consumidor com o que ele possui. No caso dos gadgets pessoais, essa estratégia é hoje levada a extremos para que eles pareçam produtos descartáveis. Nunca em nenhuma época da humanidade se ganhou tanto dinheiro provocando a insatisfação do consumidor. Pela lógica, deveria ser ao contrário. Falem-me agora de psicologia invertida. 🙂

Como alguém me confidenciou há tempos, sobre uma conversa tida com um amigo comum, esse tal amigo comum comentava na altura que: “o que sabe bem é receber e desempacotar o gadget novo”. Ou seja, é a novidade, a curiosidade, a tal insatisfação que nos é injectada pelo marketing, que nos faz querer andar a experimentar sempre gadgets com funcionalidades novas. Só que, como tudo o resto na vida, depois de um certo tempo a novidade cansa, deixa de surpreender, torna-se rotina e monotonia. Provavelmente, o mesmo vai acontecer com a maior parte dos entusiastas do iPhone.

Apenas para terminar, uma pequena provocação: um telemóvel como o iPhone, que ao mesmo tempo é um gadget multimédia, leitor de MP3, que exibe videos e fotografias num écran de excelente qualidade, que tem uma câmara de 2Mpix e…… NÃO faz videos nem permite mandar uma MMS???!!

Vá lá Mr. Steve Jobs, esforce-se um bocadinho mais para merecer o nosso dinheiro.

PS: eu não sou nem anti-Apple, nem anti iPhone. Aliás compraria um iPhone se ele fosse tecnológicamente mais moderno para além do excelente interface que possui. Quando atingir esse patamar, tiver um preço aceitável, não for um sistema “fechado” e deixar de obrigar à celebração de contratos de fidelização absurdos, talvez tenha aqui um cliente e digo talvez porque óbviamente a concorrência não vai ficar parada e por isso quando e se essa altura chegar, logo se verá o que valerá a pena.

Fontes: Wikipédia e Criança e Consumo

Opinião
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