O problema de Portugal

10/01/2008 Sem Comentários por
 

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Vem este post a propósito de um comentário feito num fórum que frequento e onde um dos membros, referindo-se a experiências que outros membros relatavam sobre falhas nos serviços de transportadoras (incluindo os CTT), disse o seguinte:

“Tirando multinacionais com nome a preservar como a FedEx ou DHL, é tudo lixo. Os CTT são do estado -> lixo ao quadrado. A acontecer isso na fedex duvido que o estafeta se saisse bem com a brincadeira, mas nos ctt numa eventual queixa eles até se riam pela ingenuidade da malta por não saber como as coisas funcionam por cá. Os funcionários estão se nas tintas pq ganham o mesmo (mal) ao fim do mês façam o serviço bem ou mal.. provavelmente dai a meses partem para outra e o ciclo continua. É um problema estrutural do País, não é desta ou daquela empresa.”

Acho piada a estes comentários, acho mesmo. Não fossem eles demonstrativos do principal problema de Portugal (e de muita ignorância) e eu até me ria e seguia em frente.

Só que esta lenga-lenga, (já gasta), de que os funcionários privados são muito mais produtivos e muito mais competentes que os “outros funcionários” de Portugal, é demonstrativa de que o “problema estrutural” do País começa (E ACABA) na mentalidade mesquinha das pessoas que o habitam.

É de elementar bom senso que há funcionários igualmente incompetentes e que passam o dia a “coça-los” no sector privado. Eu bem os vejo na empresa onde trabalho (que para saberem, tem mais de 2000 funcionários). E a empresa onde trabalho é privada.

E até se ganha bem mais que em qualquer emprego equivalente estatal e mesmo assim vejo montes de colegas a fazer que trabalham e a queixarem-se do patrão (ah, e do Estado, claro está). Acontece-lhes alguma coisa no emprego? Acham? pois sim… não o fazem em frente às hierarquias. Culpa do patrão? Não, culpa deles mesmos. Um funcionário que precisa de ter um fiscal permanentemente ao seu lado para ser profissional, é um mau funcionário, ponto final!

Também é de elementar bom senso constatar que há muito mais “moinas” no sector privado que no sector estatal, por diversas razões, sendo a principal que a quantidade de pessoas que trabalham no sector privado é ESMAGADORAMENTE superior à do sector público. Depois é apenas fazer o rácio equivalente.

Aliás, sendo verdade que Portugal tem mais funcionários públicos que a Espanha e o Luxemburgo, é igualmente verdade que mesmo assim tem bastante menos que o resto dos Estados-membros da União Europeia.

De acordo com dados do Eurostat, a percentagem de trabalhadores do Estado em Portugal é de 19,9% da população activa, ficando à frente apenas da Espanha (17,2%) e do Luxemburgo (16%). Nos restantes Estados-membros esta percentagem é mais elevada, sendo o primeiro lugar ocupado pela Suécia com 33,3%.

Que eu saiba a Suécia é um país com uma excelente economia e afinal de contas é o País que tem mais funcionários públicos no seu activo. Ganham mais? Pois ganham! E então e os impostos? Pois é, a Suécia tem impostos sobre o trabalho altíssimos, fora os impostos indirectos que também não são pêra doce.

Actualmente, enquanto em Portugal se anda sempre a falar de baixar impostos, na Suécia fala-se em os aumentar ainda mais. A Suécia tem baixissimas taxas de desemprego e uma elevada produtividade. Milagre? Claro que não. Tudo conseguido à custa de uma força de trabalho “educada”, ou seja, a mentalidade geral da população é a de contribuir para o bem comum, percebendo que fazem parte desse bem comum e que as suas acções para a comunidade também irão reverter positivamente a seu favor. Por isso é que o crescimento médio do PIB na Suécia é o 2º mais elevado da União Europeia, ficando apenas atrás do da Inglaterra.

Em Portugal a mentalidade é um pouco (quase nada) diferente: é a de comprar carro com dinheiro do empréstimo da casa, a de pedir facturas de serviços sem IVA, a de declarar 1/3 do que se ganha, a de meter despesas no IRS que não se fizeram, enfim e para resumir, a de fugir aos impostos de toda e qualquer maneira. Ah, e a mentalidade de reivindicar mais e melhores serviços públicos, dando como exemplo….. os serviços públicos da Suécia!!

Só que a verdade é que para se ter um sector público de excelência, é necessário muito dinheiro e para isso é preciso a tal mentalidade cívica de contribuição para o bem comum, que infelizmente em Portugal se resume a cada um reclamar os seus direitos e esquecer os seus deveres. Básicamente, resume-se a uma mentalidade do “ladrão que rouba ladrão…”

Por isso o nosso problema não é estrutural mas sim um problema de mentalidades, sendo que a atitude mais demonstrativa disso mesmo, é o lugar comum de se dizer mal de tudo que venha do Estado em particular, e de se dizer mal de Portugal no geral.

Urge que essas pessoas percebam que o Estado e Portugal são uma e a mesma coisa, somos nós todos.

E a triste e dura realidade, doa a quem doer, é a de que se os dois primeiros são fracos, são-o apenas como pura consequência de nós também o sermos enquanto povo.

Quase que se poderia ironizar dizendo que “Portugal é um país paradisíaco, cheio de potencial, mas infelizmente muito mal frequentado.”

Opinião
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