"Foda-se!", por Millôr Fernandes (adaptado)

24/10/2007 Sem Comentários por
 

O nível de stress de uma pessoa é inversamente proporcional à quantidade de “foda-se!” que ela diz.

Existirá algo mais libertário que o conceito do “foda-se!”?

O “foda-se!” aumenta a minha auto-estima, torna-me uma pessoa melhor. Reorganiza as coisas. Liberta-me.

“Não queres sair comigo?! – então, foda-se!”

“Vais querer mesmo decidir essa merda sózinho(a)?! – então, foda-se!”

O direito ao “foda-se!” deveria estar assegurado na Constituição.

Os palavrões não nasceram por acaso. São recursos extremamente válidos e criativos para dotar o nosso vocabulário de expressões que traduzem com a maior fidelidade os nossos mais fortes e genuínos sentimentos. É o povo a fazer a sua língua. Como o Latim Vulgar, será esse Português Vulgar que vingará plenamente um dia.

“Comó caralho!”, por exemplo. Que expressão traduz melhor a ideia de muita quantidade que a expressão “comó caralho!”?

“Comó caralho!” tende para o infinito, é quase uma expressão matemática. Senão vejamos:

“A Via Láctea tem estrelas comó caralho!”

“O Sol está quente comó caralho!”

“O universo é antigo comó caralho!”

“Eu gosto do meu clube comó caralho!”

“O gajo é parvo comó caralho!”

Entendes?

No género do “comó caralho!”, mas, no caso, expressando a mais absoluta negação, está o famoso “nem que te fodas!”.

Neste caso, nem o “Não, não e não!” e tão pouco o nada eficaz e já sem nenhuma credibilidade “Não, nem pensar!”, o substituem.

O “nem que te fodas!” é irretorquível e liquida o assunto. Liberta-te, com a consciência tranquila, para outras actividades de maior interesse na tua vida. Um exemplo: aquele filho pintelho de 17 anos atormenta-te pedindo o carro para ir surfar na praia? Não percas tempo nem paciência. Solta logo um definitivo e esclarecedor: “Huguinho, presta atenção, meu filho querido, nem-que-te-fodas!”. O impertinente aprende logo a lição e vai para o Centro Comercial encontrar-se com os amigos, sem qualquer problema, e tu fechas os olhos e voltas a curtir o teu CD (…)

Mas há outros palavrões igualmente clássicos. Pensa na sonoridade de um “Puta que pariu!”, ou o seu correlativo “Pu-ta-que-o-pa-riu!”, falado assim, cadenciadamente, sílaba por sílaba.

Diante de uma notícia irritante, qualquer “Puta-que-o-pariu!”, dito assim, põe-te outra vez nos eixos. Os teus neurónios têm o devido tempo e clima para se reorganizarem e encontrarem a atitude que te permitirá dar um merecido troco ou livrares-te de maiores dores de cabeça.

E o que dizer do nosso famoso “vai levar no cú!”? E a sua maravilhosa e reforçadora derivação “vai levar no olho do cú!”?

Já imaginaste o bem que alguém faz a si próprio e aos seus, quando, passado o limite do suportável, se dirige ao canalha do seu interlocutor e solta um: “Chega!! Vai levar no olho do cú!”?

Pronto, tu retomaste as rédeas da tua vida, a tua auto-estima. Desabotoas a camisa e sais à rua, o vento a bater na face, o olhar firme, a cabeça erguida, um delicioso sorriso de vitória e um renovado amor-íntimo nos lábios.

E seria tremendamente injusto não registar também aqui a expressão de maior poder de definição do Português Vulgar: “Fodeu-se!”. E a sua derivação, mais avassaladora ainda: “Já se fodeu!”.

Conheces definição mais exacta, pungente e arrasadora para uma situação que atingiu o grau máximo imaginável de ameaçadora complicação?

Expressão, inclusivé, que uma vez proferida insere o seu autor num providencial contexto interior de alerta e auto-defesa. Algo do género de quando estás a conduzir sem os documentos do carro, sem carta de condução e ouves uma sirene da polícia atrás de ti a mandar-te parar. O que dizes? “Já me fodi!”.

Ou quando te apercebes que és de um país em que quase nada funciona, o desemprego não baixa, os impostos são altos, a saúde, a educação e a justiça são de baixa qualidade, os empresários são de fraca competência e procuram o lucro fácil e em pouco tempo, as reformas têm de baixar, o tempo para a obter tem de aumentar, a população não tem consciência de cidadania e engana as finanças, rouba o Estado e não contribui para o país como deveria……………………. tu pensas “Já me fodi!”.

Então:

Liberdade

Igualdade

Fraternidade

e

foda-se!!!

Mas não desesperes: este país ainda vai ser “um país do caralho!”.

Atenta no que te digo.

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Millôr Fernandes é um desenhista, humorista, dramaturgo, escritor e tradutor brasileiro, nascido em 16 de Agosto de 1923 no Rio de Janeiro.

Devaneios, Humor
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