A miséria das Urgências

15/02/2008 1 Comentário por
 

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Alto e pára o baile!! Sim, porque de certeza que é “baile” que nos estão a dar!

Temos de ser ciganos. Ou melhor dizendo, temos de agir como eles.

Faço esta afirmação porque é bem provável que as urgências do sistema hospitalar português, a continuarem o caminho que seguem, se tornem daqui a uns anos na principal causa de morte em Portugal.

A afirmação é radical? Ofende alguns dos os srs. doutores e demais profissionais de saúde? Azar, comecem a provar o contrário e talvez a ideia que todos os dias nos chega através das notícias venha a mudar. E além do mais, infelizmente, alguns dos srs. doutores bem confirmam a afirmação.

A verdade é que hoje em dia quando recorremos a uma urgência de um hospital, devemos antes ir acender uma velinha a Fátima para nos proteger dos “azares”, não de cá de fora, mas sim dos que surgem depois de lá entrarmos.

O que não deixa de ser caricato, pois tanto os doentes como os familiares que os levam, deveriam respirar fundo e relaxar (dentro do possível conforme a gravidade da urgência) após terem chegado atempadamente a uma urgência. Mas infelizmente é precisamente nessa altura que o stress duplica e o receio de que algo corra mal triplica, tal é a incompetência e laxismo de muitos dos profissionais (?) que trabalham nas urgências.

E o pior é que esse medo é tanto maior quanto menos evidente é a urgência, o que revela desde já o principal problema: a incapacidade dos médicos de diagnosticar rapidamente e com precisão o problema do paciente. Chega a ser escandalosa a inépcia e falta de conhecimento que muitos dos “doutores e doutoras” recém formados demonstram na formação desses diagnósticos. Basicamente o diagnóstico em moda com esses “profissionais” é: “isso é stress, tome este calmante, vá para casa e se não melhorar volte cá”.

Digam lá, quantos de nós já não ouviu falar ou viveu este tipo de situação numa qualquer urgência do sistema hospitalar do nosso país?

Pois é, o problema é que cada vez mais acontecem casos de pessoas que são mandadas para casa com a indicação médica de que “não têm nada” ou de que “isso é stress” e depois nem chegam a ter tempo de voltar às urgências, morrem mesmo em casa ou a caminho dela.

Depois é claro, as famílias apresentam queixas, queixas essas que dão origem a inquéritos, inquéritos esses que em nada resultam pois todas as evidências de prova ficam do lado da parte “criminosa”, que habilmente as manipula conforme a gravidade que a situação merece.

Tudo isto a respeito do que se passou com o meu sobrinho (e afilhado) esta semana.

O miúdo começou a sentir dores fortes na barriga e no baixo ventre e então foi levado a um Centro de Saúde que imediatamente o encaminhou para a urgência de um Hospital, a saber, o São João do Porto.

Não estive presente, mas o que se passou e me foi transmitido pelos meus familiares basicamente foi:

1 – “Diagnóstico não conclusivo” por parte da médica que o atendeu.

2 – Indicação da mesma médica no sentido do meu sobrinho “retornar a casa , ficar sobre vigilância e voltar caso as dores se agravassem” (!!!).

Ao lado desta “profissional” da treta deveria existir uma placa a dizer:

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Resumindo, a “doutora” era tão boa profissional que mandou para casa em vigilância uma criança de 12 anos, com dores fortes no abdómen e com a indicação de que se piorassem, ou seja, se passassem de fortes a fortíssimas, voltasse à urgência. Temos aqui demonstrada, meus caros, a excelência, a nata das natas do diagnóstico médico em todo o seu esplendor.

E como cereja em cima do bolo a mesma “ilustre doutora” fez questão de demonstrar a sua vergonhosa ignorância, pois aparentemente não aprendeu nos largos anos em que tirou o curso, que a vigilância médica se faz nos hospitais e não em casa.

Ora no dia seguinte, como era previsível (e eu não sou médico) as dores tornaram-se quase insuportáveis e o meu sobrinho foi novamente levado de urgência para o Hospital de São João.

Lá chegado, esperou mais de quatro horas para ser atendido e para os médicos chegarem à (brilhante) conclusão de que era uma peritonite grave, tendo então sido imediatamente levado de EMERGÊNCIA para o bloco operatório.

E perguntam vocês: porquê de emergência?

Porque, meus caros leitores, derivado ao vergonhoso tempo de espera até ser feita a primeira observação, (mais de 4 horas), aliado à elevada (in)competência dos srs. “doutores” que ele teve o azar de apanhar na urgência, desde o primeiro dia que lá foi, a peritonite… já tinha feito perfuração.

Era mais um bocadinho e o diagnóstico poderia ser o pior de todos os diagnósticos: a morte.

A causa? Não, não seria por peritonite, mas sim por incompetência e laxismo AGUDOS dos “profissionais” de saúde que o observaram, principalmente da tal “doutora” de algibeira que o havia mandado no dia anterior para casa em vigilância.

Pois é… tenho medo, muito medo de ter de ao utilizar as urgências do nosso sistema hospitalar cair nas mãos de um qualquer “doutor” do mesmo género, mas infelizmente não tenho mais alternativas nem como fazer a triagem de quem me trata.

Ah, e falta acrescentar que os meus familiares tiveram de andar literalmente a pedir por favor para verem o que o miúdo tinha.

Por isso e voltando ao início deste texto:

Recomendo a todos que forem a uma urgência que troquem o livro de reclamações pela atitude de ciganos. Resulta mais e é eficaz precisamente na altura mais importante quando se está num serviço de urgência, que é a altura precisamente anterior a correrem o risco de morrerem por causa de um mau diagnóstico, feito por alguém que deveria ter tirado o curso de esteticista em vez de medicina.

Por isso, se numas urgências vos quiserem despachar para casa com diagnósticos de 5 tostões, façam imediatamente uma enorme peixeirada, digam que aviam 3 e matam 4, berrem bem alto, sejam broncos e “mal educados” e vão ver que em 5 minutos os srs. “doutores” vos estão a fazer todos os exames médicos e mais alguns.

Só assim é que poderão sair de um serviço de urgência hospitalar com direito a vestirem com orgulho a T-Shirt abaixo:

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PS: antes que me acusem de xenofobia eu sei bem que há muitos ciganos bem formados e educados, mas também sei que o estereotipo dos “ciganos de hospital” não é o mais abonatório para a fama daquela comunidade. Não generalizando e cingindo-me ao assunto em questão, essa é a realidade.

Actualidades, Opinião

One Response to “A miséria das Urgências”

  1. Kruzes Kanhoto says:

    Infelizmente situações como esta repetem-se vezes demais!! A ironia da coisa é que o SNS é fechado no interior e no litoral está a abarrotar e não dá igualmente resposta à necessidade dos utentes. Tá lindo isto, tá!

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