Os "Prós e Contras" da Lei do Tabaco

22/01/2008 Sem Comentários por
 

Ontem vi quase a totalidade do Prós e Contras na RTP1. Debatia-se a nova legislação sobre o tabaco, aquela que limita os locais de fumo e pretende proteger os não fumadores do fumo passivo.

Fumador passivo

Desde já tenho a dizer que achei giro o debate. Achei que foi muito esclarecedor em relação à postura dos fumadores. Mas já lá vamos.

Terei que começar por dizer, por ser verdade e para evitar conclusões precipitadas de quem lê isto, que comecei a fumar aos 15 anos e apenas parei aos 37. Desde quase o início da minha vida de fumador que fumei, pelo menos, um maço de tabaco por dia, tendo chegado aos dois maços por dia e as mazelas por vezes já se começam a fazer sentir.

É claro que nessa altura, pela década de 80, pouco se sabia sobre os malefícios do tabaco, cancros era algo de que quase não se ouvia falar e direitos das pessoas que não fumavam era algo que não passava pela cabeça de ninguém, (se calhar nem mesmo na cabeça daqueles que passivamente levavam nas “trombas” com o fumo dos fumadores).

Da década de 80 até hoje muito se evoluiu em termos médicos e em  termos de divulgação e acesso à informação. Mas, paradoxalmente, chega-se ao século seguinte e a forma de discursar dos fumadores pouco ou nada evoluiu.

Precisamente por isso é que achei curioso ver os fumadores falarem de direitos individuais e arrogarem-se a si mesmos o direito de fumarem onde bem entenderem, em prol de uma tal liberdade individual que naturalmente qualquer pessoa inteligente e de bom senso sabe que neste caso não se aplica.

E não se aplica pela simples razão de que, quando uma liberdade individual tem como consequência imediata causar danos na saúde de terceiros isso deixa de ser um direito e passa a ser uma agressão.

Ninguém impede os fumadores de exercerem o seu direito de fumarem, podem continuar a faze-lo. O que não podem é sob a falácia da tal liberdade individual estarem constantemente a causar dano em terceiros e a acharem-se, ainda por cima, com direito a isso.

Por isso agora só podem fumar onde não causem dano aos não fumadores. E isto é de tão elementar justiça e bom senso que até dói ver pessoas instruídas a argumentarem como mentecaptos em prol de um vício (esqueçam a argumentação das liberdades individuais, que por aí não convencem ninguém inteligente).

 

 

dejar_de_fumar

(doenças causadas pelo fumo do tabaco)

 

Também o subterfúgio, (mais um), de que deveriam ser os proprietários a escolher se os seus estabelecimentos seriam ou não abertos a fumadores, não convence ninguém.

Isso era realmente o que os fumadores queriam e querem. É essa a luta deles e nada tem a ver com terem pena do eventual prejuízo desses mesmos proprietários, pois a intenção é bem mais ardilosa. Sabem porquê? Porque aqui na vizinha Espanha a lei foi aplicada dessa forma e o resultado ao fim de apenas 2 anos, está à vista.

No global, mais de 90% dos estabelecimentos espanhois mantiveram-se como locais abertos ao fumo. Apenas 10% dos cafés e 15% dos restaurantes com menos de cem metros quadrados optaram por ser espaços sem fumo, e os que o fizeram admitem que perderam clientes. Apesar de ter sido anunciada como uma das mais restritivas da Europa, a lei espanhola é das mais permissivas e fracassou especialmente em regiões como Madrid, onde foi aprovado um decreto para a suavizar ainda mais.

A lei do tabaco espanhola fracassou e é isso que os fumadores portugueses pretendem, quando ontem, no Prós e Contras, defendiam para Portugal uma lei igual à espanhola, pois sabem que cá aconteceria um cenário igual ou pior ao de Espanha.

Por isso, foi realmente pena o nosso Governo “não os ter tido no sítio” e não ter decretado que passava a ser proibido fumar em todos os locais fechados de acesso público e ponto final. Tal e qual como foi feito na Irlanda, terra de bares e pubs em cada esquina e que continuam sempre cheios, mesmo não se fumando.

Era matar três coelhos de uma só cajadada.

1 – Acabava-se com o fumo passivo de vez.

2 – Nenhum empresário sofria prejuízos, (ora sendo proibido fumar em todo o lado, as pessoas mantinham-se fieis aos seus locais de lazer habituais, não mudavam para o café da esquina ou para o bar do outro lado do rio, onde…. também não poderiam fumar).

3 – Não se perdia tempo a debater assuntos sérios com pessoas que, após anos a oprimir os não fumadores sem se importarem com isso, se fazem agora de vítimas invocando uma tal "liberdade individual" (a tal "liberdade" de agredir a saúde dos outros, de forma indiferenciada e gratuita, que exerceram durante séculos).

Achei também piada ver um ilustre advogado (que até é vereador) e uma professora, martirizarem-se, ao melhor estilo do Calimero, alegando que os fumadores estão a ser marginalizados e discriminados pela sociedade. Meus caros, com a formação académica que têm deveriam ter o bom senso de nem sequer insinuarem tal coisa (e convenhamos que comparar os malefícios do tabaco com os de um prato de Tripas à Moda do Porto, dá-nos quase vontade de exclamar: "e o burro sou eu?!!)

Mas já que falaram de marginalização e no que diz respeito ao fumo do tabaco, quem é que foi marginalizado todos os séculos passados?

E mais recentemente (há menos de 1 mês atrás), quem é que tinha sempre que ir para um cantinho de 3 ou 4 mesas num restaurante, para apenas (e só APENAS) respirar um pouquinho menos de fumo?

Quem é que teve de suportar o fumo passivo durante anos, décadas a fio, quando utilizava comboios, autocarros, salas de espectáculo, pavilhões desportivos, salas de bilhar, cinemas (sim, também se fumava nos cinemas), restaurantes, cafés, bares, hospitais, locais de trabalho, etc, etc, etc ??? Quer-me parecer que a falácia da vitimização dos fumadores fica assim esclarecida.

Eu fui fumador e sei bem o mal que o meu acto de fumar causou a mim e a outros. O facto de já não fumar não me faz achar esta lei mais justa do que acharia caso ainda fumasse. Ninguém me veria a mim a manifestar-me contra ela, pois graças a Deus tenho consciência e bom senso, que são bem mais importantes do que as liberdades individuais excessivas, como é o caso da liberdade de se querer fumar onde bem se entender.

Quanto ao resto, para bom entendedor……..

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